Este artigo compõem uma sequência sobre as mudanças na ortografia da língua portuguesa, incluindo as novas regras para hifens e acentos diferenciais. Anteriormente foram escritos um artigo sobre trema e o alfabeto e outro sobre a acentuação em paroxítonas e vogais dobradas.
Acentos diferenciais
Antes desta recente reforma, em muitas palavras com grafia idêntica mas com pronúncia diferente usava-se acento em uma das palavras para diferenciar uma da outra. Escrevia-se, portanto
- Ele foi afetado pelo pêlo do canhorro
- Como fazer se ela não pára para eu saber o que está havendo?
Agora estas palavras serão escritas sem o acento diferencial. A pronúncia e a compreensão da frase dependerão do contexto da frase.
Existem exceções à regra. Foi mantido o acento diferencial quando as palavras envolvidas são flexões em tempos distintos de um mesmo verbo. Ainda escreveremos
- Se antigamente ele não pôde, agora ele já pode.
- Você tem alegria, mas eles têm a Felicidade.
- Qual é o motivo pelo qual ele vem tão rápido enquanto os amigos dele vêm tão devagar?
Também foi mantido o acento diferencial do verbo pôr com a preposição por.
- Por favor, você pode pôr os acentos no lugar certo?
Pior ainda é o caso da palavra fôrma, aquela utilizada para assar bolos e pudins. Ela poderia ser considerada como palavra acentuada para diferenciada da forma que as pessoas e as coisas têm. Entretanto o acordo tornou o uso da acento em fôrma facultativo, ou seja, você pode escrever como quiser.
Hifens
O uso do hífen em palavras compostas foi uma das alterações que devem trazer mais dúvidas. Vejamos as regras a seguir.
Prefixo terminado em vogal e elemento seguinte começando com a mesma letra.
Nestes casos deve ser utilizado o hífen. É o caso de anti-inflamatório, micro-ondas ou tele-educação. A regra não é seguida para o prefixo “co” e continuam sem hífen palavras como cooperar ou coordenar. O hífen está mantido quando o elemento seguinte começar por ‘h’, como em co-herdeiro.
Não há consenso no caso do prefixo “re”, mas a tendência que de não grafarmos com hífen palavras como reeleição ou reedição.
Prefixo terminado em vogal e elemento seguinte começando com letra diferente
Nestes casos o hífen não deve ser utilizado. Escreveremos, portanto, antiaéreo, infraestrutura e autoajuda. Se o segundo elemento começar por ‘r’ ou ‘s’, esta consoante será dobrada. Serão grafadas então ultrassonografia ou contrarregra.
Lembre-se que esta regra é para prefixos terminados em vogal. Palavras compostas com prefixos em ‘r’ (como super) e elemento seguinte iniciado com a mesma letra ainda são escritas com o hífen. Não haverá mudanças para super-resistente, portanto.
Segundo elemento começa por ‘H’
Mantém-se o hífen nestas palavras, como super-homem ou pré-história. Não se usa hífen quando a composição é formada pelos prefixos des ou in e a segunda palavra perde o ‘h’, como nos casos desumano ou inumano.
Espécies botânicas e zoológicas
Também está mantido o hífen em palavras como bem-me-quer ou feijão-preto. Esta regra vale para palavras derivadas como azeite-de-dendê ou água-de-coco. Porém, atente-se a casos como o da planta bico-de-papagaio ou do problema de coluna bico de papagaio.
Topônimos
São topônimos as palavras que indicam um lugar. Deve-se grafar com hífen os topônimos iniciados por “Grão” (Grão-Pará), que contenham um verbo (Santa Rita do Passa-Quatro) ou que sejam ligados por um artigo (Baía de Todos-os-Santos).
Circum e Pan
Palavras com este prefixo terão hífen quando seguidos de vogal, ‘H’, ‘M’ ou ‘N’. É o caso de circum-navegação ou pan-americano.
Sub
Será utilizado com hífen quando seguido de ‘B’, ‘R’ ou ‘H’, como sub-base, sub-reino ou sub-humano.
Mal
O hífen será utilizado quando diante de ‘L’, ‘H’ ou vogal, como mal-humorado.
Ad
Haverá hífen quando o segundo elemento começa com ‘D’, ‘H’ ou ‘R’. A palavra adrenalina continua a ser escrita desta forma, mas não está claro se adrenal passará a ser ad-renal.
Além, Aquém, Bem, Ex, Grã, Pós, Pré, Pró, Recém, Sem e Vice
Estes prefixos são sempre seguidos de hífen, com algumas exceções. Escreve-se Além-mar, bem-amado, grã-fino, pós-graduação, recém-nascido ou vice-presidente. Mas serão exceções palavras como benquisto e bendizer.
Sufixo de origem indígena
As palavras cujo sufixo tiver origem indígena (como Guarda-mirim) são grafadas com hífen.
Noção de composição perdida
Não há mais hífen em palavras onde a noção de composição perdeu-se com o tempo. É o caso de mandachuva, paraquedas, paraquedista ou paraquedismo. O problema é obter consenso sobre quais são as palavras onde esta noção de composição foi perdida. Existe a tendência a serem considerados somente os quatro casos aqui citados. Então estariam mantidos os hifens em palavras como para-raios ou guarda-chuva. Também foi mantida a grafia sem hífen de palavras como madressilva ou pontapé.
Conjuntos de palavras que formam uma nova
Se um conjunto de palavras formam uma nova expressão em significado e função, não serão grafadas com hífen. É o caso de dia a dia, mão de obra ou pé de moleque. Será mantido o hífen de sete locuções
- Água-de-colônia
- Cor-de-rosa
- Pé-de-meia
- Deus-dará
- Arco-da-velha
- Queima-roupa
- Mais-que-perfeito
A confusão das exceções
Você deve ter reparado que este artigo tratou de situações com muitas exceções. Isso sem falar de casos sem consenso. Por exemplo, escreveremos coabitar ou co-habitar? Estes casos só serão esclarecidos após a publicação do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, elaborado pela Academia Brasileira de Letras.